quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Descompasso do tempo



Do que valeu a vida,
Aprendido com ela viver...
Se nada ensinou que esse momento
Em nossas vidas, pudesse acontecer.

Sem ti, sou agora como pássaro perdido,
Sem ninho, nem rota pra voltar...
No revolto do espaço e tempo aludido.
Num misto de amor, sem amar!

Se choras num leito em dores,
E perguntas, se o tempo tem razão...
Ou se hoje é apenas mais um dia
Em que posso escrever tua extrema canção!

Trago dentro de mim, o afago dos teus abraços.
Fez-me rasgar mágoas enquanto adormecias por mal...
Escrevi versos pro teu gracioso semblante,
Por quantas vezes, tu abrandou meu insano temporal!

De que valeu a vida, penso eu!
Tudo em nossas vidas pudesse acontecer.
Quando escrevo tua linda canção!
E tu olhas e perguntas pra mim,
Se o tempo de ser, tem razão...

(Guerra Sarapião)

domingo, 23 de novembro de 2008

A dança e a alma...



A DANÇA? Não é movimento,
súbito gesto musical.
É concentração, num momento,
da humana graça natural.

No solo não, no éter pairamos,
nele amaríamos ficar.
A dança – não vento nos ramos:
seiva, força, perene estar.

Um estar entre céu e chão,
novo domínio conquistado,
onde busque nossa paixão
libertar-se por todo lado...

Onde a alma possa descrever
suas mais divinas parábolas
sem fugir à forma do ser,
por sobre o mistério das fábulas.

(Carlos Drummond)
Foto: "Dueto" de A. Brito